18 novembro 2021

Miga XIV : Morrinha

 
Morrinha


A língua antiga
chama por nós,
as suas raices
turram de nós.

Vida singela,
humilde, enxebre,
os nossos eidos,
chamam por nós.

Chamam morrinha
ao berro da Nai,
aquel lamento,
que turra de nós.

Chamam-lhe morrinha
ao assubio do vento,
que a mim arrecende-me,
que habita em nós.

É a morrinha
esse sentimento,
que a mim recorre-me
e leva-me a vós.

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12 novembro 2021

Miga IX : Ser serei

 
Ser serei


Podendo ser auga,
queres ser enigma.
Podendo ser brisa fresca,
sopras lume.

Ser perdom e nom vingança,
abrir portas de esperança.
Voar libre e sem fardos.
Picar pedra, fundar castros.

Ser Lar, nom cova imunda,
abrir caminhos,
que a outros sirvam.
Fazer bem, o malo abonda.

Ser verdade, nom enredo.
Ser derrota se é irmandade,
ser vitória se é sumar.
Ser onda e ser escuma,
cousa liviám, ser pluma.

Ser uma nuve branca,
o linho do tear.
Ser pomba ou rola,
ser ás e voar.

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08 novembro 2021

Miga V : Mocinha de vidro

 

Mocinha de vidro


A mocinha era de vidro,
do mais fino da Boémia,
daquel azul esperança.

Como uma delicada flor,
de turquesa fermosura,
que nom te fartas de mirar.

Minha mocinha de vidro
era um amor em pintura,
que ninguém podia tocar.

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Miga IV : Vidas passadas

 


Ao rebusco polos sendeiros
de sinais de vidas passadas,
rastos de vidas já vividas.

Hai um faro que as alumea,
que em todas as direçons vé-se,
uma luz que nom se consome.

🌟




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07 novembro 2021

Miga III : Aura azul

 
Aura azul


Nom vim vir as suas luzes,
só via vir companhia
e agradável conversa.

Nom vim vir tempestade,
que seu corpo anunciava,
via à Nai adorável.

Se houvera visto bem os seus olhos,
eu estaria cego em ledícia
e rendido à sua imagem divina.

Nom vim vir cravo ardente
que atravessou-me o peito
e ardo sem remédio.

Eu tenho um Sol metido no corpo.
É a sua alma que arde coa minha,
sem dar-se consumido.

Medra-me um Universo de luzes,
imparável reaçom en cadea,
que eu nom vim vir sair dos seus olhos.

Nim vim vir a sua aura azul, 
meter-se dentro de mim
para pintar-me o céu.

🌟




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05 novembro 2021

Miga II : Veleno

 
Eu mordim uma serpe
e traguei seu veleno.
Estivem com febre
um més e dez dias.

Figem a travessia
do deserto da alma.
Pensei que morria
e volvim à vida.

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