25 setembro 2023

Miga CXIX : Espinho alvar

 
Espinho alvar
*

É o espinho alvar
luz no caminho.
Uma branca flor
e rojo froito.

Amor e sangue
numa arvorinha
de adoecido
e cruel espinho.




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10 setembro 2023

Miga CXVIII : Recordo


Recordo 
*

Hoje, acordo-me de vós,
se Deus o quere, também manhá.
Manhá pode ser um bom dia
para eu recordar-vos.




Moradelha editora




09 setembro 2023

Miga CXVII : Autoestima

 
Autoestima
*

Hoje nom hei trocar lamento e pranto,
porque vou fazer desta vida canto.
Afugentarei as inimizades.
Colhendo altura de miras i estima,
irei voando atá o mais alto da cima.
Mudarei jeitos, mas nom amizades.
Turrando cara riba com bem força,
até que meu espírito renasça.




Moradelha editora




08 setembro 2023

Miga CXVI : Coraçom de zucre

 
Coraçom de zucre
*

Bicou-me no fronte,
nos olhos bicou-me,
deixou meu coraçom
rojo cristalizado,
como maçã da feira,
de zucre  ençoufado.




Moradelha editora




07 setembro 2023

Miga CXV : Probeza

 
Probeza
*

Rouvarom-me a vida e fago o que podo
pra nom ir espido e caminhar direito.
Onde queira que miro só vejo egoísmo
e ando emprestado em terreno alheio.
Sem possibilidade de torce-lo,
encadeado ao meu rego e destino.
Sinto que vivo arredor de avareça,
sinto que morro com fame e probeza.




Moradelha editora




30 agosto 2023

Miga CXIV : Siléncio

 
Siléncio
*

E cala o vento,
entanto a neve cai.
E dói-me a voz, 
cansa de falar no vazio.

Derrete o coraçom
co lume da pena,
co recordo duma paixom,
com mágoa serena.




Moradelha editora




27 agosto 2023

Miga CXIII : Di-me, Lua

 
Di-me, Lua
*

Fala-me a Lua co seu movimento
e rodando cala a passinho lento.
Brilha, nasce e morre de tanto em quando.
Chora às escuras cos pesares nossos.




Moradelha editora




15 agosto 2023

Miga CXII : Karma

 
Karma
*

O siléncio enche-te de dignidade
diante de aqueles que te desprezárom
e agora nom podem mirar-te à cara.

Nunca entenderam a tua qualidade
esses homens que tanto te humilhárom
e precisam petar na tua porta agora
para nom sentir-se perdedores.



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20 xuño 2023

Miga CXI : Esmola

 
Esmola
*

Sacou cartos da bulsa
para dar-lhos de esmola
a um espelicado home,
deixando-lhos ò seu pé.

E mirou cara ao ceo
coa alegria contida
de quem fai um bem-feito
e satisfeito abofé.




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07 maio 2023

Miga CX : Maio

 

Maio
*

Sorridente mes de Maio
que enche os campos de flores
e as beiras dos caminhos.
Pom alegria nos lares
e nos corpos dos moçinhos.

Vem cuma cheia de letras
que polas ruas estoupa
na jornada do dezasete,
dia da nossa língua Nai,
cocho das almas galegas.




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23 abril 2023

Miga CIX : Ramalhete de flores

 

Ramalhete de flores
*

Entom numa man poreiche
um ramalhete de flores
e a outra colhereiche-a 
e sentiremos dentro de nós
como dous meninhos
divertem-se e correm 
polos churidos outeiros,
polas generosas veigas
que rebocham sementeira
cos aires da primavera.




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07 abril 2023

Miga CVIII : Salgado florido

 

Salgado florido
*

Salgado florido em fronte do mar
que alegra as bravas ondas
e tamem os meus olhos,
a area e o claro ceo.

Hora azul do meu suspiro,
reflexado na auga cristalina,
festando lento mar adentro
dipois de malhar nas pedras.




Moradelha editora




18 marzo 2023

Miga CVII : Primavera

 

Primavera
*

A mensagem duma flor coa mensageira.
Nos poros quentes da minha pele
agitam-se raios de Sol,
nascem flores neles, dança o vento.

Cai a derradeira folerpa do inverno
na delicada flor duma mimosa;
derrete-se sua frágil geometria
no perfume da nova vida.

Venhem outras folhas atrás de nós,
outra nova verde primavera.
Uma Infáncia cheia de alegria,
cheinha de sonhos e de arelas.




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04 marzo 2023

Miga CVI : Apagou-se a luz

 

Apagou-se a luz
*

Apagou-se aquela luz
que tanto tempo me alumiara
e pechou-se aquela porta 
que de tanto em tanto guichava.

Seica as cousas tenhem um fim,
seica todo tem o seu fim.
Rematei a ler teu livro
um vinte e trés de Abril.

Todo tem seu equilíbrio,
cuma margem, muita ou pouca.
Todo tem o seu espaço,
seu instante de luz.




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21 febreiro 2023

Miga CV : Expansom

 

Expansom
*

Cada dia que passa
é um dia mais
que o Universo medra,
é um dia mais
que medra o tempo;
mais espaço para onde ir,
mais tempo para quedar-se.
Cada dia que passa
confirma-se o eterno.




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19 febreiro 2023

Miga CIV : Sentires

 

Sentires
*

Sinto arrecendo de fume
e nom há fume nim lume.
Vejo as estrelas do ceo
sendo de dia, nom noite.

As vezes ve-se o que se quere ver 
e o que se quere sentir, sinte-se.
Por isso agora oivo, vejo e sinto,
entanto esperto dum sonho.




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26 xaneiro 2023

Miga CIII : Trás os montes

 

Trás os montes
*

Caminhando polo val
sae a Lua trás os montes.
Caminhando polos montes,
atrás deles sae a Lua.

Caminhando polo ceo
sae a Lua de passeio
i eu colhido da sua man
vejo montes e vales
e casinhas coloradas.




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19 xaneiro 2023

Miga CII : Verbas

 

Verbas
*

Libertade pra apertar as palavras
e bota-las dipois juntas a voar
e que alguém as recolha dum mangado,
pensando que é um tesouro pra seus olhos.

A alegria de atopar o segredo
que fure o pensamento adormecido,
despertando as ánsias esquecidas,
pondo-lhe ás aos sonhos de grandeza.




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15 xaneiro 2023

Miga CI : Vida efémera

 

Vida efémera
*

Deitado no gardunho outeiro,
cai a noite.
Enchem-se de estrelas
o meus olhos cansados,
que parmam mirando ao ceo.

Quan efémera é nossa vida
quando olhamos o firmamento.




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05 xaneiro 2023

Miga C : A contraluz

 

A contraluz
*

Versos a contraluz,
brilhantes e tímidos,
cristalinos e atrevidos,
coa forza dum raio
e coa intençom de alumiar.




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31 decembro 2022

Miga XCIX : Rosa dos ventos

 

Rosa dos ventos
*

Cheirei a rosa dos ventos
nas quatro esquinas do tempo,
pandiam nelas os séculos,
voavam sementes de fentos.

🌟



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27 decembro 2022

Miga XCVIII : Estrela de mel

 

Estrela de mel
*

A minha estrela
é uma bolinha de mel
resgatada do seu favo
por um raio de sol.

A minha estrela sodes vós,
que escrevedes poesia
para alumiar o meu Mundo
com azucre bendizido.

🌟



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16 decembro 2022

Miga XCVII : Longo inverno

 

Longo inverno
*

Dipois dum longo inverno
de pena e de desamor,
descongelou-se-lhe o coraçom
e os páxaros do seu peito,
botarom-se a voar.

🌟



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15 decembro 2022

Miga XCVI : Mirada perdida

 

Mirada perdida
*

Pousara-se-lhe um páxaro
na sua mirada perdida,
sem propósito de voar.

Apertava-se ao seu sonho
coa cara petrificada,
sem quere-lo abandoar.

🌟



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14 decembro 2022

Miga XCV : Porta pechada

 

Porta pechada
*

Pechaches a porta,
pensando que eu
era persoa ruim.

Já podes abri-la,
um chisco xiquera,
té-la longe de mim.

🌟



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06 decembro 2022

Miga XCIV : Florcinha

 

Florcinha
*

Uma florcinha que treme
sua nascente primavera,
frágil e tímida ergue
seu pequeno talhe.

Espida e solitária
dissimula seu orgulho,
escondendo sua beleza
entras ervinhas do campo.

🌟



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26 novembro 2022

Miga XCIII : Espertar

 

Espertar
*

Já nom me desperta
o cantar do rouxinol
nim o trino da cotovia
ao pé do salgueiro.

Esperta-me a melodia
que levo nas entranhas,
uma cançom que sae
do fondo do meu ser.

🌟



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25 novembro 2022

Miga XCII : Apertar as estrelas

 

Apertar as estrelas
*

Trepou coa paciéncia da hedra,
coa alegria do humilde cardés,
intentando apertar as estrelas
e querendo bicar os seus pés.

🌟



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24 novembro 2022

Miga XCI : Coraçom

 

Coraçom
*

Tendes um coraçom
que nom vos colhe no corpo,
coraçom sobrenatural.

Nele morrerei sem remédio.
Vivo ou em sonhos,
convosco vivirei eternamente.

🌟



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21 novembro 2022

Miga XC : Vidas

 

Vidas
*

Tenho vida;
vida amorosa e conjugal,
vida familiar,
vida íntima.

Vida laboral,
privada e pública,
vida social.

Muitas vidas tenho,
mais vivo um sem viver,
um sem saber,
um sem querer,
vivo vivindo
e assim vou indo.

🌟



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19 novembro 2022

Miga LXXXIX : Alento

 

Alento
*

No alento da Nada
o equilíbrio atopei.
Mal ningum eu farei
a niguém, nim a mim.

🌟



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12 novembro 2022

Miga LXXXVIII : Despedida

 

Despedida
*

Choveu no mar de Fisterra,
despedindo um marinheiro.
Choverom augas salgadas,
bágoas da minha terra.

E choveu sobre molhado,
chorando por uma perda.
Choverom augas salgadas,
era o mar quem chorava.

🌟



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09 novembro 2022

Miga LXXXVII : Espelho da vida

 

Espelho da vida
*

Ao través dum espelho
via passar minha vida,
que nom reconhecia.

As nuvens buliam,
buliam as luzes,
bulia eu,
bulia o Mundo.

🌟



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02 novembro 2022

Miga LXXXVI : Nascemento

 

Nascemento
*

Há de arder minha voz
queimada por um raio de Sol,
parindo reflexos e sombras
escampando-os polo ar.

Há nascer uma estrela
que há brilhar mais co ouro
e furará meu peito
para rescatar-me do Mundo.

🌟



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31 outubro 2022

Miga LXXXV : Augas do Minho

 

Augas do Minho
*

Eu quero morrer nas verbas dum livro,
no médio dum verso, em folha de azivro
e volver nascer num cocho de linho,
postos a pedir, nas augas do Minho.

🌟



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29 outubro 2022

Miga LXXXIV : Algo de mim

 

Algo de mim
*

Se de mim qués algo,
só tés que chamar-me;
eu nada che quero,
que ti poidas dar-me.

De nom ser que tenhas
um sonho comigo,
ou pode que queiras
ser meu amigo.

🌟



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27 outubro 2022

Miga LXXXIII : Sem rumo

 

Sem rumo
*

Caminhava sem rumo
na tardinha de outono.
Se te vim nom me acorda,
cavilava pra ela.

Tropezou numa pedra
e sem chegar a cair,
houvo alguém que nom vira
que agarrou-lhe o cadril.

🌟



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18 outubro 2022

Miga LXXXII : Poesia letal

 

Poesia letal
*

Como seria um verso
dum home que fora
perverso ?.

Como som as verbas
das persoas que som
soberbas ?.

Se fora a poesia
uma arma letal,
qual arma seria ?.

Pistola soa fatal,
pois nom rimaria.
Ah !, canhom de artilharia,
isso seria.

🌟



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14 outubro 2022

Miga LXXXI : Tua voz

 

Tua voz
*

Tua voz comigo dorme,
pois fum o ladrom dela;
a avareza comeu-me,
loginho de senti-la.

Canta-me polas noites
i esperta-me co dia.
Tua voz comigo amence
dende que eu a ouvira.

🌟



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09 outubro 2022

Miga LXXX : Lama

 

Lama
*

Quando ti caias na lama,
e quedes embarruntado,
deixarei tua alma lavada
coa auga que levo comigo.

Quando na lama recaias
e nom te dés levantado,
a minha man será a corda
que te porá no caminho.

E a minha auginha bem clara
limpará-te bem limpado.
Todas as vezes que cumpram
sacarei-te do barrado.

🌟



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04 outubro 2022

Miga LXXIX : Faro da ánima

 

Faro da ánima
*

Uns apropriados versos
prendem um faro na alma,
um sustento e uma luz,
dom de supervivéncia.

🌟



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30 setembro 2022

Miga LXXVIII : Sol e Lua

 

Sol e Lua
*

Estavam namorados Sol e Lua,
no mesmo mar deitavam seu reflexo,
mas cada um deles a distintas horas,
vivindo um desesperado desamor.

🌟



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28 setembro 2022

Miga LXXVII : Imaginaçom

 

Imaginaçom
*

Voa nossa imaginaçom
por paisagens imposiveis,
criando umas belas histórias
de óbvio jeito imaginárias.

A mente viaja serena
pola choiva que nom molha,
polo lume que nom queima,
co seu corpo que nom pesa.

Vivindo escenários de amor
ou bem de padecemento,
ilusom e desengano
há na nossa vida criada.

Cheia de agitaçom e aciom;
viver com medo e vertigem,
entre apertas consumadas,
flutuar num sano delírio.

🌟



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26 setembro 2022

Miga LXXVI : Destino

 

Destino
*

Nom vai errado o destino,
nosso tránsito obrigado,
nosso inexorável sino.

Marco duma fiestra aberta
que nom tem folhas nem fecho,
que nom tem jeito de pechar.

🌟



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25 setembro 2022

Miga LXXV : Alma

 

Alma
*

Minha alma está composta
dumas luzes e duns sons;
umas luzes que eu vejo-as
cos meus olhos pechados
e música que sinto-a
quando é que os olhos pecho.

I é só quando nom miro,
é que vé a minha alma,
uns mundos que percorro,
frequéncias que me habitam.
Assim passará sempre,
consciente ou inconsciente.

🌟



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18 setembro 2022

Miga LXXIV : Velhinho

 

Velhinho
*

A gorja treme-lhe
co seu berro xordo,
como uma pregária
e o nariz fumega-lhe
coa geada nevoeira.

Sorri um velhinho,
sintindo morrinha
da sua juventude,
ao passarem uns novos,
que lhe ciscam um olho.

🌟



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16 setembro 2022

Miga LXXIII : Sentidos

 

Sentidos
*

Fazendo caso aos sentidos
quedei xordo e ceguei de amor, 
fiquei parvo co seu gosto.

Sentim aroma de rosas,
bafejei seu doce cheiro,
peró espinhei-me ao toca-las.

🌟



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Miga LXXII : Tangente

 

Tangente
*

A tangente dos dous mundos
vai já quedando-nos longe.

Sem ponto de soldadura,
vivimos mundos disjuntos.

Que cousa mais diferente
som vossa vida e a minha,
dipois da nossa tangente.

🌟



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13 setembro 2022

Miga LXXI : Esplendor

 

Esplendor
*

Há uma grande fiestra
de verde e de ouro
onde bafeja um amor,
que ninguém dá pechado.

A janela onde habita
o meirande coraçom
é a entrada dum Mundo,
que só tem chaves a Nai.

🌟


"Um medo e uma voz
vibram polas mangas :
Esplendor divino.
O divino senta-se à minha beira."

Nostradamus



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12 setembro 2022

Miga LXX : Negro sobre branco

 

Negro sobre branco
*

De sete em cinco,
de cinco em sete,
brancas e negras,
pretas e brancas.

Para elas mirando,
escuito uma voz.
Quando as estou tocando,
umas mans acaroo.

Sete pecados brancos
baixo preta man.
Cinco pétalas
e uma única flor.

Quem poderia imaginar
nas mans sabedoria,
no seu tato, memória,
nos dedos melodia.

🌟



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11 setembro 2022

Miga LXIX : Bágoas de tinta

 

Bágoas de tinta
*

Minhas bágoas saloucam
uns versos sobre um papel,
tinta na minha pluma,
alívio na minha alma.

Minhas bágoas saloucam
de amaranto sementes,
suspiros de desamor,
rosas pra teu coraçom.

🌟



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Miga LXVIII : Berros

 

Berros
*

Berrando em siléncio
cos olhos e coas mans,
co peito ao caminhar
e coa minha ánima.

Dando berros de amor
e berros de paixom.
Estou berrando-te,
berra meu coraçom.

🌟



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04 setembro 2022

Miga LXVII : Memória adolescente

 

Memória adolescente
*

Fermosa adolescéncia
com cheiro de frescura,
encadeada à ciéncia
que seus males nom cura.

As ánsias de galopar
polo desconhecido,
sem medo a se espotrear
na primeira revolta.

Ai meu Deus, cousa será !,
que quando há uma ilusom,
nossa adolescéncia entom,
dura toda uma vida.

E renasce o coraçom
e já estamos perdidos,
pois em calquer momento
escarafelamo-nos.

Aquel mesmo arrepio
sentindo uma música;
aquela mesma paixom
ao sentir uma aperta.

🌟



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03 setembro 2022

Miga LXVI : Auga alourada

 

Auga alourada
*

Fum banhar-me sem sabe-lo
numas augas alouradas.
Agora entendo o meu erro
vendo brilhar o meu pelo.

Falara-me meu instinto,
que antes nunca me falhara.
Sempre há uma primeira vez
para o que tem que acontecer.

🌟



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29 agosto 2022

Miga LXV : Raíces

 

Raíces
*

Furam fondas as raíces
do nosso velho carvalho
polos resquícios das pedras,
metem-se nos interstícios.

Em pesca de terra aireada,
buscam matença e frescura.
Co seu esforço constante,
atopam bafejo e vida.

🌟



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25 agosto 2022

Miga LXIV : Paraíso terrenal

 

Paraíso terrenal
*

Maduram as maçãs,
que a terra nos regala,
mas se nom as comedes,
podrecem.
Deleites e prazeres,
alegram a existéncia,
ao fazer mal uso deles,
enfermades.
Herdastes um paraíso
cheio de maravilhas,
que senom o coidades,
desaparecedes.

🌟



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23 agosto 2022

Miga LXIII : Lugares

 

Lugares
*

Há lugares onde nom da chegado
a luz do Sol, nem chegará.
Há lugares duma sombra perpétua
onde sempre é inverno e todo geada.

Se se poideram quentar esses nortes
tam frios e tam sombriços,
se os poideramos pór de cara ao Sol !,
se se poideram queimar suas geadas !.

Convosco estarei no norte sombriço,
vivirei no preto gelo
e sentadinhos na fouce da Lua
contaremos as estrelas do ceo.

E sentindo-me sem sede nim fame,
como os dias passaram-me,
sem ánsia algumha de estar cos amigos,
sumido na minha amiga soidade.

E pode que morrerei desnutrido,
comido pola ansiedade,
se meus olhos nom divisam aginha
um quente raio de luz que me guie.

🌟



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21 agosto 2022

Miga LXII : Velha beleza

 

Velha beleza
*

Nom caduca a beleza,
senom nossa mirada passageira.
Flor que perde a forteza,
deixa de ser primeira,
passando-lhe sua fermosura à herdeira.

O seu jeito ilustrado,
de lindos epítetos maioria. 
Madureza e legado
é sua sabedoria
pra uma nova vida, uma nova euforia.

🌟



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20 agosto 2022

Miga LXI : Auga clara

 

Auga clara
*

A auga que corre clara,
som as palavras que morrem
na mesma ponta da língua,
que nós iremos bebendo,
passando de boca em boca.

🌟



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19 agosto 2022

Miga LX : Casa dos prazeres

 

Casa dos prazeres
*

Na casa dos prazeres
hai muitas angústias,
sintem-se berros
e hai muito alvoroço.

Soportar padeceres,
quando ainda se é moça,
nom parece boa história.
Melhor se começo.

🌟



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18 agosto 2022

Miga LIX : Encontro

 

Encontro
*

Por um caminho de pedras,
uma noite de Lua nova,
caminhando bem devagar,
num bosque espesso e sombriço.

Mesurando a respiraçom,
para nom ter um tropeço.
Pausando bem as palavras,
assim falaria convosco.

Será a plena luz do dia
i espero sentir-me livre
quando tal feito aconteça
e sanar a minha doença.

Dipois escrevirei versos
com frases que nom vos diga.
Recordarei vosso encanto,
vossa voz e nosso encontro.

🌟



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12 agosto 2022

Miga LVIII : Mirada de amor

 

Mirada de amor
*

E quando o amor mira-te
aos olhos fixamente,
estás perdido.

A consciência perdedes
quando por diante vedes,
um ceo aberto.

Onde todo era vazio,
desborda de súpeto,
todo está cheio.

E quedas sem alento,
afoga-te num suspiro,
toleas sem remédio.

🌟



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11 agosto 2022

Miga LVII : Recordos durmidos

 

Recordos durmidos
*

Tenho recordos durmidos
que nom os dou espertado.
Sinto neles as respostas
do que me foi denegado.

Som recordos que dormem
dia e noite comigo.
Foço-os pra ver se saem,
mas nunca dam saído.

🌟



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09 agosto 2022

Miga LVI : Santiago moço

 

Santiago moço
*

Foi no monte do Gozo
que apareceu Santiago moço,
num cavalo branco sem montura,
pola noite de Sam Lourenço.

E desapareceu coma um raio
até a fonte da Prateria
e agora preside orgulhoso
o pórtico da Glória.

🌟



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07 agosto 2022

Miga LV : Aprendendo a cantar

 

Aprendendo a cantar
*

Logo chegou a aurora
entre dores e vento.
Da man do mar e ondas
entra uma brisa bela.

Justinho livro aberto
e um ramo de rosas.
Eu digo adeus amigas,
companheiras coristas.

Adeus vozes e rimas.
Conservo o vosso canto,
o meu melhor recordo
duma música viva.

Melodias que eu sinto
saindo coma frechas,
da gorja direitinhas
até os vossos coraçons.

🌟



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05 agosto 2022

Miga LIV : Palavras douradas

 

Palavras douradas
*

Revolvendo nas palavras
como quem remexe na terra,
em busca de ouro.

Remexendo sem tasa,
buscando palavras douradas
que nos fagam ricos.

Em pesca dumas verbas
imaculadas, puríssimas,
que brilhem coma o Sol.

A palavra dourada,
precisa e preciosa
que alvoroce o coraçom.

Palavras que ardam
no peito ao senti-las,
por pura definiçom.

🌟



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01 agosto 2022

Miga LIII : Presa rendida

 

Presa rendida
*

Deitado na sombra
dum velho carvalho,
sem saber o por que, 
eu mirei cara atrás.

Ali estava ela,
estampa serena,
olhando para mim,
a mulher espida.

Cumhas ás de águia,
que paralizou-me.
Quedei como pedra
peneda do Pindo.

Azul era o fondo,
rabioso celeste,
um ceo de rapinha, 
eu um espertelho.

E pousei-me aos seus pés,
fum presa rendida.
Estendeu as suas ás
e ardeu o Mundo.

🌟



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31 xullo 2022

Miga LII : Alma de cristal

 

Alma de cristal
*

Por uma alma de cristal
é que vivo com pena;
sua frágil compostura
duma tenra buchinha.

Entre manada de feras
disfarzadas de floristas,
passeia a sua feitura
a luz brilhante da Lua.

🌟



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29 xullo 2022

Miga LI : Um rio de palavras

 

Um rio de palavras
*


Uma cheia de palavras
nascem nas cimas nevadas.
Vam correndo polas pedras,
rio abaixo musicais.

Coa harmonia amplificada,
corre o verbo primigénio,
para escuita-lo e colhe-lo,
i escreve-lo em cantigas.

Correm delicadas verbas
para serem recitadas,
modestas e transparentes,
som pingas de auga inocente.

Contempla-nas meus sentidos,
sem sentir delas fartura,
nim dou feito coa leitura
que a minha ánima sinte.

Corre um rio de escritura
para ser interpretada.
Bola de neve que roda
sem literária demora.

🌟



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